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Maior que 210 cidades do RS: conheça o supercondomínio de Porto Alegre que virou uma "cidade vertical"

03/07/2026

No avanço da madrugada, o canto de sabiás e saracuras cede espaço ao ruído dos chuveiros, num alarme informal de que mais um dia está prestes a começar no maior condomínio de Porto Alegre

 

O despertar da cidade vertical começa com um ritual coletivo de luzes acendendo, portas se abrindo e água escorrendo, antes mesmo de o sol cruzar as persianas dos 1.252 apartamentos do Terra Nova Nature, conjunto de seis torres situado na Avenida Bento Gonçalves, no bairro Santo Antônio, zona leste da Capital.

 

Inaugurado no início dos anos 2010, o residencial tem 4.453 moradores registrados, população superior à de 210 municípios gaúchos. Somando funcionários, visitantes e prestadores de serviço, mais de 5 mil pessoas circulam todos os dias pelo local — contingente que alcança 6 mil pessoas aos finais de semana.

 

Jonathan Heckler / Agencia RBS

Condomínio ocupa um terreno de 55 mil metros quadrados na Avenida Bento Gonçalves, na zona leste da Capital.Jonathan Heckler / Agencia RBS

 

Para a convivência fluir sem maiores sobressaltos, 11 gestores, da zeladoria ao conselho fiscal, administram um orçamento mensal de cerca de R$ 1 milhão. O maior gasto, com a equipe de 43 pessoas de portaria e segurança, é de R$ 235 mil mensais, seguido pelos contratos de limpeza, academia e elevadores, que mantêm equipes de prontidão no condomínio.

 

Arquitetura minimiza conflitos

Projetados em forma de Y, os edifícios compõem uma fachada angulosa e saliente, lembrando um acordeão amarelado erguido ao céu numa das vias mais movimentadas da Capital. Dos portões para fora, Porto Alegre pulsa no ritmo do trânsito frenético e barulhento. Do lado de dentro, há uma calmaria aparentemente incompatível com tamanha aglomeração urbana.

 

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O residencial abriga 4.453 moradores, número superior ao de centenas de cidades gaúchas. - Jonathan Heckler / Agencia RBS

 

A movimentação incessante nas três portarias contrasta com a quietude do pátio, um conjunto de garagens que conecta as torres e pelo qual estudantes passam apressados, idosos caminham de chambre e pantufas e donas de casa compram água na máquina de autoatendimento. A escassa interação, na maioria das vezes restrita a cumprimentos de bom dia, boa tarde e boa noite, traduz a impessoalidade de uma arquitetura que concentra e separa ao mesmo tempo.

 

Com cerca de 70 metros de altura, as torres do Terra Nova Nature têm 21 andares, com 12 apartamentos cada um. Mas o formato em Y distribui inteligentemente apenas quatro residências por corredor, diminuindo a chance de atrito entre moradores de um mesmo andar. No centro dos pavimentos, dois elevadores sociais e dois de serviço transbordam os moradores do térreo ao terraço.

 

— Eu só vejo os três vizinhos do meu canto. Nem conheço as outras pessoas que moram no andar — conta Ana Paula Ribeiro, 44 anos.

 

Um empreendimento nasce do WhatsApp

A despeito do isolamento, Ana Paula é uma das moradoras mais populares. Em 2023, ela montou uma loja virtual após perceber que havia uma forte demanda por produtos de papelaria nos grupos de WhastApp do condomínio. Ana começou com apenas dois fornecedores, atendendo pedidos pontuais e hoje mantém cerca de 500 produtos no portfólio, de canetas a envelopes, de material de escritório a presentes, tudo organizado em um quarto transformado em estoque, cheio de armários e compartimentos. Não raro, ela é chamada tarde da noite por um vizinho com uma encomenda de última hora.

 

— Já aconteceu de eu estar de pijama, onze e meia da noite, e ter que sair para entregar uma venda de urgência. Outros me pedem para entregar no fim da tarde, quando chegam do trabalho, ou às sete da manhã do dia seguinte. É uma cartolina que o filho esqueceu para o trabalho da escola, um presente de aniversário, embalagens. Pedem de tudo — comenta a empresária.

 

A maior parte das vendas de Ana Paula vem pelo WhatsApp, principal canal de comunicação dos moradores. Além de uma comunidade reunindo todos os apartamentos, e na qual apenas a administração do condomínio envia mensagens, há grupos específicos para tratar de  vendas, pets, garagens, academia e assuntos gerais.

 

— A gente troca muitas dicas por ali, principalmente indicações de profissionais, como chaveiro ou instalador de ar-condicionado — diz Ana Paula.

 

 

Não por acaso, há 65.489 prestadores de serviço cadastrados na portaria. Do outro lado da rua, o Supermercado Hoffmann tem 70% da clientela com origem nas seis torres. São tantas pessoas cruzando a Bento Gonçalves diante do mercado que a prefeitura pintou uma nova faixa de segurança e prepara a instalação de uma sinaleira no local.

 

Com quase metade do faturamento vindo das vendas internas, Ana Paula também alimenta o ecossistema comercial do Terra Nova Nature. Quando precisa receber clientes, ela encomenda bolo ou cachorrinho-quente de uma das tantas vizinhas que trabalham em casa, vendendo comida aos demais moradores. 

 

Em geral, elas se encontram nos eventos promovidos pelo condomínio, como festas juninas ou de Natal. Em junho, uma feira com 15 expositores movimentou o final de tarde na entrada da torre A, oferecendo doces, salgados, bijuterias e artesanatos, entre outros produtos.

 

Dedicação exclusiva e regras rígidas

Quem organiza os convescotes é outro condômino que mora no emprego. Aos 44 anos, Diego Costa está no terceiro mandato sucessivo de síndico. Ele chegou em 2011 e logo no dia da mudança teve o carro abalroado na garagem, no que pareceu mau presságio do novo endereço. Com o tempo, demonstrou liderança na discussão das normas de convivência e, em 2023, foi convidado a se candidatar à administração após a morte do então síndico.

 

Diego se elegeu com folga e se adequou tanto à função que acabou fechando a agência de publicidade que mantinha para se dedicar exclusivamente ao Terra Nova Nature. Todas as manhãs, ele desce do apartamento no 18º andar para o escritório, no terceiro, onde divide as tarefas administrativas com três funcionários de uma imobiliária.

 

No espaço também funciona o setor que recebe encomendas. Em duas salas atulhadas de pacotes, quatro funcionárias organizavam as entregas do dia - na terça-feira da semana passada (16/6), eram 674 produtos dos mais diversos formatos e tamanhos. Somente itens maiores, como geladeiras, não são recebidos no local. Desde o início do ano, o condomínio já recebeu 43.695 compras dos moradores.

 

Diego tem esses dados ao alcance da mão. Desde que assumiu o cargo, ele implementou um aplicativo que reúne as informações do condomínio e ainda permite registro de ocorrências e realização de enquetes. A consulta serve para chancelar obras ou melhorias sem necessidade de sucessivas reuniões de condomínio, já que para mexer na convenção é necessária a presença de 835 proprietários em assembleia geral, o que só acontece uma vez ao ano e raramente alcança quórum para deliberações. Dessa forma, ele organiza a convivência pelo celular.

 

Foi por ali, por exemplo, que ele consultou os moradores sobre a instalação de tomadas para recarga de carros elétricos, medida que será adotada nos próximos meses. É também no aplicativo que são agendados mudanças e horários na academia. O registro mais constante, todavia, é de reclamações. São em média quatro ocorrências por dia, quase sempre com queixas de barulho, seja por som alto, brigas de casais, ar-condicionado pingando e latidos de cães.

 

 

Segurança máxima e um assunto proibido

No Terra Nova Nature, as normas ocupam 36 páginas. Boa parte delas está estampada nas paredes, como a proibição de fumar, de tocar violão nos quiosques ou circular com cães sem coleira. Um dos responsáveis pela obediência coletiva é Adílson Barbosa, 28 anos, um dos quatro chefes de segurança do condomínio.

 

— É ele quem me deixa dormir — brinca o síndico.

 

Revezando-se em turnos de 12 horas, Adílson e os colegas coordenam equipes de nove auxiliares: três atendendo nas portarias, três circulando nas garagens e outros três pelo resto do condomínio. Munidos de celular, rádio comunicador e com 397 câmeras esquadrinhando todos os cantos do complexo, nada passa despercebido ao grupo, do cheiro de maconha nas escadarias dos fundos aos amassos de adolescentes atrás da piscina. 

 

— Já achei que fosse ser agredido por um visitante. O filho dele estava jogando bola no quiosque, onde não pode. O meu auxiliar foi lá, orientou, e o cara foi agressivo. Eu subi e ele veio para cima de mim. Foi por pouco— diz Adílson.

 

 

Às vezes, a perturbação é digital. Para evitar transtornos, é proibido falar sobre política nos grupos de WhatsApp. Em 2024, uma nova moradora, candidata à Câmara de Vereadores, viu no condomínio um filão eleitoral e começou a causar polêmica com postagens provocadoras. Foi expulsa dos grupos, teve apenas 31 votos e se mudou logo após a eleição.

 

Bosque e legião estrangeira

Construído sobre uma pedreira desativada na divisa entre os bairros Santo Antônio e Partenon, o Terra Nova Nature abriga nos fundos uma área de preservação permanente de 3,5 hectares. Composta por vegetação rasteira e árvores de grande porte, como paineiras e figueiras de 16m de altura, a mata habitada por pássaros e gambás circunda espaços de lazer, como piscina, churrasqueiras, redário e quadra de esportes. Um longo deck de madeira liga os prédios ao bosque, aproximando a natureza do concreto.

 

O reduto é um dos locais preferidos de Mauro Lopes, 29 anos. Nascido em Luanda, capital de Angola, ele mora no condomínio desde 2023, atraído por uma bolsa de estudos para cursar Administração de Empresas na PUC-RS. Assim como ele, outros 21 estudantes angolanos também bolsistas vivem no condomínio, formando a maior comunidade estrangeira do local. Juntos, eles celebram datas festivas da terra natal, cozinhando pratos típicos e dançando kuduro.

 

— Às vezes passamos um pouco do horário de silêncio no salão de festas. — diverte-se Mauro.

 

Tão logo chegou a Porto Alegre, Mauro estranhou duas coisas: o frio e a imensidão do Terra Nova Nature. Perdido no labirinto de garagens e corredores, mais de uma vez tentou entrar no apartamento errado, só percebendo o equívoco após forçar a chave sem girar a fechadura. Agora já acostumado à temperatura e à distribuição das torres no terreno de 55 mil metros quadrados, ele aproveita a estrutura fazendo churrascos e caminhando pela mata.

 

— A gente consegue fazer praticamente tudo aqui. Há espaço para todo mundo. Apesar do número enorme de moradores que cá existem, são pessoas simpáticas. Cada um no seu canto da melhor forma. Tem vizinhos chatos, mas também tem vizinhos bons. E é isso, cada um sabe conviver da melhor forma, sem invadir o espaço de ninguém — comenta o angolano.

 

O condomínio em números:

  • 4.453 moradores
  • 1.252 apartamentos de 67 e 69 m²
  • 1.254 vagas de garagem
  • 397 câmeras de vigilância
  • 344 extintores de incêndio
  • 266 mangueiras
  • 180 brigadistas treinados
  • 24 elevadores
  • 19 churrasqueiras
  • 1 piscina
  • 5 quadras de esportes
  • 19 churrasqueiras
  • 1 playground
  • 1 praça infantil
  • 13 bicicletários
  • 6 salões de festas — 3 para 20 pessoas e 3 para 60 pessoas
  • 36 botijões de gás de 452 litros cada
  • 3 portarias e 4 portões
  • 11 gestores
  • 165 funcionários
  • 65.489 prestadores de serviços cadastrados
  • 81.832 visitantes cadastrados
  • 12 mil litros de lixo orgânico por dia
  • R$ 1 milhão de orçamento mensal
  • R$ 663 de taxa básica de condomínio
  • 5,75% de inadimplência

 

 

Fonte: GZH